Exploradores na Terra do Fogo
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Navegar através do arquipélago fueguino, entre suas baías e pequenas enseadas, explorando sua incrível geografia, é uma aventura que sempre seduziu intrépidos navegantes. Eles deixaram aqui suas memórias de naufrágio e vento…
DESCUBRIMENTO DO ESTREITO DE MAGALHÃES
Entre os séculos VXI e VXIII, as terras austrais foram o cenário de um contínuo ir e vir de expedições européias que procuravam descobrir novas rotas e territórios para facilitar as vias de intercâmbio existentes e ampliar a hegemonia dos reinados que representavam.
Um dos pioneiros destas viagens foi o português Fernão de Magalhães, que zarpou da Espanha em 1519 motivado pelo mito da “Terra Australis Incógnita”. A missão que lhe encomendou o então rei da Espanha Carlos V – a quem Magalhães ofereceu seus serviços depois de uma forte briga com o monarca português – consistia em descubrir uma passagem marítima para chegar às ilhas Molucas, localizadas no Pacífico Sul. Nessa época, Espanha e Portugal disputavam a posse dessas terras, ricas em especiarias.
Depois de um ano de árdua travessia, entre 21 de outubro e 28 de novembro de 1520, Magalhães e as cinco caravelas espanholas sob seu comando atravessaram a tão desejada passagem oceânica, a qual então se denominou “Estreito de Todos os Santos” e que hoje chamamos “Estreito de Magalhães” em honra ao seu descobridor.
Antes de passar pelo cabo que batizaram “das Onze Mil Virgens” (na atualidade, Cabo Virgens) ja haviam descoberto as chamativas fumaças sobre a costa sul do Estreito, provenientes com certeza dos assentamentos aborígenes, o que inspirou Magalhães para batizar a região como “Terra dos Fogos”.
A expedição continuou pelo Estreito em direção ao oeste, até alcançar o mar aberto. Curiosamente, o mar estava calmo nessa ocasião e é por isso que o Oceano Pacífico recebe esse nome.
A história de Magalhães terminaria em pouco tempo, depois de uma batalha contra os nativos ao tentar colonizar una ilha filipina. A expedição finalizaria sob o mando de Juan Sebastián Elcano, quem leva à Espanha as notícias sobre o achado.
Além da abertura de um novo caminho para o oriente, a viagem significou um incremento nas expectativas européias sobre a conquista de novos territórios.
PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES EUROPÉIAS
As expedições que sucederam à de Magalhães tiveram objetivos similares: alcançar as Molucas colonizando na sua passagem, as terras descobertas.
Durante várias décadas, as tentativas de atravessar o Estreito falharam. Até que a meados do século XVI chega à zona o capitão Juan Ladrillero, que consegue cruzá-lo de oeste a leste levando a cabo um importante trabalho explorador, dando nomes e descrevendo as paisagens e habitantes austrais.
Naquela época, vários portos espanhóis no Chile, Peru e outros povoados mais ao norte, recebem o ataque de piratas e corsários que começaram a utilizar os canais austrais como via de escape. Entre estes temidos piratas, se encontrava o britânico Sir Francis Drake, que em 1578 se converteu no primeiro navegante “estrangeiro” (alheio à Espanha”) em cruzar o Estreito de Magalhães, para logo continuar até completar a volta ao mundo. Quando se encontrava no Oceano Pacífico, uma tempestade o desviou para o sul onde puderam comprovar que o continente americano estava separado do antártico. Deste modo se deu fim ao mito da “Terra Australis Incónita”. Contrariamente à crença popular, Drake não navegou o estreito que hoje leva seu nome, nem se aproximou sequer do Cabo Hoorn, e sim se derivou muito mais ao norte.
À ameaça dos piratas, se somava o avanço das frotas inglesas, que continuavam tomando posições e estabelecendo colônias por todas as partes do globo. Por estes motivos a Coroa Espanhola decidiu colonizar a “Terra dos Fogos” através do assentamento na costa do Estreito de Magalhães. Foi assim como, em 1584, a expedição sob o comando de Pedro Sarmiento de Gamboa funda os povoados “Em nome de Jesus” (perto do Cabo Virgens) e “Rei Don Felipe” (nas imediações do Forte Bulnes, ao sul da atual cidade de Punta Arenas). Esta iniciativa não prosperou devido à falta de alimentos, os violentos temporais e o desconhecimento das características do meio ambiente, que acabaram com a população pouco tempo depois de estabelecida. Este fracasso manteria os espanhóis longe por quase quatro décadas.
Pouco tempo depois começaram as freqüentes aparições dos holandeses, das quais a mais transcendente foi a expedição comandada por Jacob Le Maire e Willian Schouten. À diferença de seus antecessores, eles não cruzaram o Estreito, mas sim, continuaram navegando para o sul. No dia 21 de janeiro de 1616 divisaram uma ilha, a qual batizaram “de los Estados” em homenagem ao seu país (nessa época, Staten Land) e o estreito que divide esta da Ilha Grande da Terra do Fogo, que denominaram Le Maire. A viagem continuou para o sudoeste, em busca de novos mares, denominando durante sua passagem, acidentes geográficos menores, até que chegaram ao ponto mais austral do continente e o batizaram “Cape Hoorn” em honra à cidade de onde partiram e à uma das naus da expedição, desse momento.
“Nossa Senhora de Atocha” e “Nossa Senhora do Bom Sucesso” foram as naus que concretizaram o despertar espanhol. Em 1619, depois de vários anos de ausência no extremo sul do continente americano, os irmãos Gonzalo e Bartolomé Garcia del Nodal dirigiram uma expedição que obteve transcendência ao ser a primeira em percorrer a costa atlântica da Ilha Grande da Terra do Fogo – dando nome sistematicamente a muitos dos acidentes geográficos encontrados no caminho – e por levar a cabo a primeira circunavegação. Também, conforme os registros, haviam sido os primeiros em estabelecer contato com os nativos.
No começo do século XVIII era de conhecimento público na Europa a existência de uma porção insular ao sul do continente americano e da existência de habitantes nativos. A história das navegações na Terra do Fogo teve como protagonistas a franceses, holandeses e britânicos, quem – guiados pela cartografia elaborada cada vez com maior precisão, graças aos descobrimentos de Magalhães, Le Maire e os irmãos Nodal, entre outros – exploraram, descobriram e deram nome a inumeráveis acidentes geográficos do arquipélago.
À medida que se incrementava o conhecimento sobre estas terras as expedições foram adquirindo carácter científico, chegando a desembarcar a terra firme por períodos cada vez mais prolongados. Isto desenvolveu contatos mais freqüentes com os nativos e finalmente as primeiras tentativas de colonização.
Um dos navegantes mais destacados desse século foi o inglês James Cook, que realizou várias viagens a essa região. Na primeira, a bordo da nau Endeavour no ano de 1769, foi acompanhado pelos científicos Joseph Banks e Daniel Solander que conseguiram revelar valiosa informação sobre a geografia da área oreintal da Ilha Grande e sobre os nativos que a habitavam. A segunda das viagens de Cook foi talvez uma das mais transcendentes, já que tinha como objetivo revelar o mistério antártico. Foi assim como chegou até as Ilhas Georgias e descobriu as Sanduíches do Sul, deixando no seu caminho muito dos topônimos da Ilha dos Estados.
A informação obtida nessas viagens sobre as riquezas da região deu lugar a um intenso tráfico lobeiro e baleeiro que se estenderia até o princípio do século XX, provocando o risco de extinção de muitas das espécies da fauna marinha.
DESCOBRIMENTO DO CANAL BEAGLE
Em 1826 chegou a estas costas uma expedição inglesa formada pelos bergantins “Beagle” e “Adventure”, sob o comando dos capitães Robert Fitz Roy e Philip Parker King respectivamente. Tinham o propósito de realizar um relevamento hidrográfico do litoral da região e de avaliar a possibilidade de estabelecer relação com os aborígenes. Fazendo parte da tripulação se encontrava o contra-mestre Mathew Murray, que descobriu a passagem de mesmo nome e foi quem avistou de longe o canal que posteriormente batizariam de “Beagle”, em homenagem à embarcação que liderava Fitz Roy.
O contato com os nativos foi progressivo, e começou através de troca de produtos naturais (peixes, peles e gordura) por botões, contas e outros elementos de pouco valor no mercado europeu. Depois de um confuso episódio num desses intercâmbios, o capitão Fitz Roy tomou quatro aborígenes como reféns, os quais foram levados à Inglaterra com o propósito de serem introduzidos na cultura inglesa, especulando a possibilidade de utilizá-los como intérpretes em viagens futuras. Mas, a pesar de ter tido excelentes resultados na Inglaterra, o objetivo de Fitz Roy se viu finalmente frustrado, pois no seu regresso à ilha, os três aborígenes sobreviventes daquela experência voltaram a adotar os costumes de sua cultura.
Durante estas e outras expedições – que incluíam novamente Fitz Roy e outros personagens destacáveis como Charles Darwin e James Weddel – continuou- se explorando as riquezas do território, através da realização de relevamentos e investigações científicas. Também começaram a se comtemplar com maior ambição as possibilidades de exploração e assentamento, objetivos que até o momento não tinham passado de tentativas frustradas.
ALGUMAS TENTATIVAS DE COLONIZAÇÃO
No ano de 1844 o capitão aposentado da marinha britânica Allen Gardiner fundou junto a outros anglicanos a “Sociedade Missioneira da Patagônia”, que logo ampliaria suas ambições e mudaria seu nome a “Sociedade Missioneira do Sul da América”. Esta empresa tinha como objetivo arrecadar fundos para enviar missões que predicassem o evangelho entre os aborígenes.
Um ano antes, Gardiner havia percorrido a região do Estreito de Magalhães onde estabeleceu contatos positivos com alguns nativos. No entanto, quando regressou mais tarde, encontrou já a influência dos homens brancos e decidiu então aventurar-se por terrenos ainda mais austrais.
Sua primeira tentativa na Ilha Picton, no ano de 1848, não teve êxito devido à reações hostis por parte dos aborígenes.
Dois anos mais tarde voltou aos canais fueguinos, desta vez com a idéia de estabelecer uma “missão flutuante”. Apesar de seu empenho na busca de verbas para a construção de navios adequados, somente conseguiu duas embarcações pesadas.
Novamente em Picton, a relação com os nativos se tornou insustentável. Conjuntamente, as duas naus destinadas ao abastecimento dos europeus sucumbiram – uma por motim e a segunda por naufrágio – piorando a situação.
Finalmente, Gardiner e seus seis companheiros decidiram abandonar o lugar, e depois de deixar uma mensagem de auxílio na Ilha Picton, se transladaram à Baía Aguirre na Península Mitre. Logo de vários meses na costa, resistindo à crudeza meteorológica e à falta de alimento, os missioneiros foram perecendo um a um. Se presume que o último deles foi o próprio Gardiner, quem registrou os fatos em um diário achado porteriormente junto aos restos da expedição.
EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS
A “Expedição Científica Cabo Hoorn” chegou à Terra do Fogo em setembro do ano de 1882, com o capitão Luis Fernando Martial no comando da nau “La Romanche”. Esta expedição francesa – identificada também com o nome da nau – tinha objetivos exclusivamente científicos e deixou valiosos resultados depois de vários anos de trabalho.
A iniciativa teve lugar depois de uma série de conferências realizadas na Europa em 1879, quando vários países coincidiram com a criação de estações científicas que fossem se desenvolvendo simultaneamente em pontos chaves das regiões polares. De 14 lugares escolhidos, 12 se encontravam no Oceano Ártico e tão somente 2 nas proximidades do Polo Sul.
Foi assim como se decidiu a construção de um modesto assentamento na Baía Orange (Ilha Hoste), no qual permaneceram durante mais de três anos, quase uma dezena de investigadores incluindo Martial e o Dr. Hyades.
Durante essa prolongada estadia – além de percorrer os arquipélagos próximos realizando estudos de meteorologia e magnetismo terrestre, de astrologia, zoologia, botânica, geologia e meteorologia – os científicos estabeleceram uma estreita relação com os Yámana. Inicialmente, começou com o intercâmbio de produtos diversos tal como aconteceu com outros navegantes que haviam passado antes pela região. Mas a longa permanência da tripulação, resultou na cooperação por parte dos Yámanas em numerosas atividades de utilidade aos fins das investigações antroplógicas. Isto se viu favorecido, em parte, pela experiência dos missioneiros anglicanos que se encontravam em Ooshooia ( a poucas milhas de distância) trabalhando com os nativos há vários anos e que rapidamente estabeleceram relação com os integrantes da La Romanche.
Os resultados da expedição foram altamente positivos. No seu regresso à França, os científicos levaram consigo uma grande variedade de amostras e informação que tiveram um valor fundamental no conhecimento dos sistemas naturais deste setor do globo.
A PRESENÇA ARGENTINA
A soberania argentina começou a se ver ameaçada pela onda de expedições européias que freqüentavam o arquipélago e também perante possíveis desejos de expansão por parte da república chilena.
De acordo ao tratado de amizade, suscitado em 1855, ambos países reconheciam como próprios os mesmos territórios que possuíam no momento da sua independência da coroa espanhola, em 1810.
No entanto, diante de certas omissões ou superposições nos títulos espanhóis, ambos países continuaram suas políticas expansionistas. O Chile fundou a cidade de Punta Arenas e, entre 1859 e 1862, o comandante argentino Luis Piedrabuena chegou à Ilha Pavão e à Ilha dos Estados. Estes constituíram os únicos assentamentos de homens brancos na região até a instalação da Missão Anglicana em 1869.
Desde a década de 1840, Piedrabuena tinha se dedicado a navegar os mares austrais, caçando lobos marinhos nas costas patagônicas. Na Ilha dos Estados instalou um estabelecimento para o processamento de pingüins.
Seu papel como “defensor da soberania nacional” surgiu de maneira casual desde o princípio: encontrando-se na região, em numerosas oportunidades teve que sair ao resgate de náufragos e colaborar com a instalação de postos de guarda e aprovisionamento. Com cada um destes atos se reivindicava a soberania nacional e defesa do território.
Somente a partir de 1878 começou a agir oficialmente, desempenhando-se como assessor do governo em questões de importância para a Patagônia e Terra do Fogo. Levou adiante incontáveis expedições. Trabalhou inclusive na planificação da Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul, na qual não pôde participar devido à sua morte repentina, um ano antes da data prevista para a partida.
O objetivo principal da Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul foi a instalação da polícia costeira perto de onde hoje se conhece como a cidade de Ushuaia. O governo argentino via com bons olhos a possibilidade de estabelecer um posto de vigilância e resgate que atendesse os incovenientes que pudessem surgir entre as embarcações que chegavam à região. Dada as características físicas e as condições meteorológicas da região, muitas vezes era necessário auxiliar os navegantes e consertar os barcos. Isto, levado adiante de forma organizada e com regulação oficial, podia significar uma importante fonte de renda para o governo nacional. Por outro lado, a proximidade da fronteira chilena e a existência de uma missão religiosa estrangeira incutiam certa preocupação no Congresso. O estabalecimento de uma polícia naval, ou como é chamada, subprefectura seria uma estratégia ideal para assentar soberania sobre o território.
No dia 25 de maio de 1884, poucos meses antes de adentrar-se no Canal Beagle, a expedição comandada pelo Comodoro da Marinha Augusto Lasserre, cria uma subprefectura na base do Monte Richardson, na Ilha dos Estados e inaugura o farol San Juan de Salvamento no porto de mesmo nome. No dia 28 de setembro de 1884, a frota (composta pela corveta canhoneira Paraná, o aviso Comodoro Py, o aviso Transporte Villarino e as embarcações Patagones e Bahía Blanca) chega finalmente à baía de Ushuaia. Aquí a expedição é recebida com cordialidade pelos missioneiros, especialmente pelo Reverendo Thomas Bridges que deu conselhos a Lasserre sobre o melhor lugar para a instalação da subprefectura. O local escolhido foi uma baía que os Yámana denominavam “Alakushwaia” (baía do pato vapor), localizada a 2 km para o leste da missão religiosa. Assim, no dia 12 de outubro desse ano, se inauguraram os primeiros edifícios da Subprefectura Naval de Ushuaia.
Desde então, no dia 12 de outubro de cada ano se celebra o nascimento da cidade de Ushuaia. Mas só no ano seguinte – dia 27 de junho de 1885 – quando se estabeleceu a divisão política do território e se começou a construção do povoado, que teve como primeiro governador o Capitão da Marinha Félix María Paz.
Em 1871 se instala definitivamente a Missão Anglicana, a cargo do Reverendo Thomas Bridges.
Em setembro de 1884, sob o comando do Comandante Augusto Lasserre, chega a Ushuaia a Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul da Armada Argentina, procedente da Ilha dos Estados onde haviam instalado uma subprefectura e o farol San Juan de Salvamento que mais tarde seria conhecido como o Farol do Fim do Mundo. Com o propósito de afirmar a soberania argentina nessa região, a apenas 20 km da fronteira com o Chile, no dia 12 de outubro de 1884 se inaugura a Subprefectura Naval Argentina e se iça por primeira vez o Pavilhão Nacional sobre uma instituição argentina na ilha. Todo ano, nessa mesma data, se comemora o nascimento da nossa cidade.
No entanto, uma idéia preocupava o Governo da Nação: efetuar a radicação definitiva de povoadores neste solo. É dessa maneira que o governo argentino decide instalar um presídio no arquipélago fueguino. No princípio se instala uma Prisão Militar na Ilha dos Estados, e uma cárcere de Reincidentes na Baía Golondrina, nos arrabaldes da cidade.
Paralelamente, em 1902, se coloca a pedra fundamental do edifício que ainda se pode observar, no qual se albergou presos comuns, militares e - em alguma ocasião – até presos políticos, unificando as duas instituições anteriores. O Presídio Militar e a Cárcere de Reincidentes da Terra do Fogo foi o eixo do desenvolvimento da cidade na primeira metade do século XX. Suas oficinas de imprensa, fotografia, alfaiataria, sapataria, carpintaria, padaria, serviço médico e farmácia, cobriam as necessidades de uma população tão distante de tudo, onde os barcos chegavam com sorte, uma vez por mês.
No início do século, o pequeno povoado vê com agrado a chegada de algumas famílias de origem croata. A verdadeira razão de seu translalado à Ushuaia, está ligada ao êxodo de croatas a Punta Arenas (Chile) de onde migravam à Argentina. Em 1913 zarpam da Espanha algumas famílias com o frustrado objetivo de instalar aquí uma fábrica completa para enlatar sardinhas. Diante do fracasso da empresa, alguns espanhóis regressam ao velho continente, enquanto outros encontram motivos para ficar nestas terras.
Em 1928 ocorre a chegada à Ushuaia do primeiro vôo: Gunter Plüschow e seu hidroavião “Condor de Prata” revolucionam o tranqüilo povoado. No entanto, o transporte marítimo continua sendo a única via de comunicação de Ushuaia com o resto do mundo, até fins de 1935.
Naqueles anos navegar por estes arquipélagos era uma tarefa realmente difícil, por isso, numerosos naufrágios constituem uma parte importante da história da região. Em 1930, o navio de origem alemão “Monte Cervantes” naufraga saindo da baía de Ushuaia, quando levava uma quantidade de passageiros que igualava em número a população local daquela época. Os náufragos foram socorridos e alojados durante seis dias nos escassos lares que existiam em Ushuaia nesse tempo. Compartilharam sua estadia com eles até que um novo navio chega para ajudá-los e os transladam a Buenos Aires.
Em 1947 Governo da Nação decide suprimir a cárcere e todas as instalações são transferidas ao Ministério da Marinha. Nesse mesmo ano, com a criação da Estação Aeronaval de Ushuaia, se inauguram linhas aeroanavais que abasteciam as bases patagônicas e a companhia Aeroposta começa a chegar regularmente.
A vida da pequena Ushuaia se vê novamente renovada em 1948 com a chegada de outro barcos de imigrantes: o “Gênova”, que trazia um grupo de italianos que chegavam com o objetivo de construir moradias. Muitos deles deixaram o lugar uma vez terminada a tarefa, mas alguns preferiram ficar. Também começam a chegar famílias chilenas que se estabelecem na cidade. Com o tempo, estes imigrantes foram formando o grupo de pioneiros, os quais hoje se distinguem como “antigos povoadores”.
Em 1950 é criada a Base Naval Ushuaia Almirante Berisso, que é a mesma que funciona atualmente nas ruas San Martín e Yaganes.
A década de 70 marca outra etapa na história da cidade, com a sanção da Lei de Promoção Industrial (Ley Nº 19.640) muitos argentinos chegam atraídos pela possibilidade de trabalhar e guardar economias.
Em 1990 nasce a Província da Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, quando o honorável Congresso da Nação sanciona a Lei de Provincialização (Lei Nº 23.775). No dia 1º de junho do ano seguinte se jura a Constituição Provincial e desde então, nessa data, se comemora o Dia da Província.
Desde as suas origens e até a atualidade, Ushuaia viu crescer a sua população através da chegada de imigrantes provenientes de diferentes regiões da Argentina e do mundo, o que deu como resultado , uma cidade que se caracteriza pela sua variedade e riqueza cultural.
DESCUBRIMENTO DO ESTREITO DE MAGALHÃES
Entre os séculos VXI e VXIII, as terras austrais foram o cenário de um contínuo ir e vir de expedições européias que procuravam descobrir novas rotas e territórios para facilitar as vias de intercâmbio existentes e ampliar a hegemonia dos reinados que representavam.
Um dos pioneiros destas viagens foi o português Fernão de Magalhães, que zarpou da Espanha em 1519 motivado pelo mito da “Terra Australis Incógnita”. A missão que lhe encomendou o então rei da Espanha Carlos V – a quem Magalhães ofereceu seus serviços depois de uma forte briga com o monarca português – consistia em descubrir uma passagem marítima para chegar às ilhas Molucas, localizadas no Pacífico Sul. Nessa época, Espanha e Portugal disputavam a posse dessas terras, ricas em especiarias.
Depois de um ano de árdua travessia, entre 21 de outubro e 28 de novembro de 1520, Magalhães e as cinco caravelas espanholas sob seu comando atravessaram a tão desejada passagem oceânica, a qual então se denominou “Estreito de Todos os Santos” e que hoje chamamos “Estreito de Magalhães” em honra ao seu descobridor.
Antes de passar pelo cabo que batizaram “das Onze Mil Virgens” (na atualidade, Cabo Virgens) ja haviam descoberto as chamativas fumaças sobre a costa sul do Estreito, provenientes com certeza dos assentamentos aborígenes, o que inspirou Magalhães para batizar a região como “Terra dos Fogos”.
A expedição continuou pelo Estreito em direção ao oeste, até alcançar o mar aberto. Curiosamente, o mar estava calmo nessa ocasião e é por isso que o Oceano Pacífico recebe esse nome.
A história de Magalhães terminaria em pouco tempo, depois de uma batalha contra os nativos ao tentar colonizar una ilha filipina. A expedição finalizaria sob o mando de Juan Sebastián Elcano, quem leva à Espanha as notícias sobre o achado.
Além da abertura de um novo caminho para o oriente, a viagem significou um incremento nas expectativas européias sobre a conquista de novos territórios.
PRIMEIRAS EXPEDIÇÕES EUROPÉIAS
As expedições que sucederam à de Magalhães tiveram objetivos similares: alcançar as Molucas colonizando na sua passagem, as terras descobertas.
Durante várias décadas, as tentativas de atravessar o Estreito falharam. Até que a meados do século XVI chega à zona o capitão Juan Ladrillero, que consegue cruzá-lo de oeste a leste levando a cabo um importante trabalho explorador, dando nomes e descrevendo as paisagens e habitantes austrais.
Naquela época, vários portos espanhóis no Chile, Peru e outros povoados mais ao norte, recebem o ataque de piratas e corsários que começaram a utilizar os canais austrais como via de escape. Entre estes temidos piratas, se encontrava o britânico Sir Francis Drake, que em 1578 se converteu no primeiro navegante “estrangeiro” (alheio à Espanha”) em cruzar o Estreito de Magalhães, para logo continuar até completar a volta ao mundo. Quando se encontrava no Oceano Pacífico, uma tempestade o desviou para o sul onde puderam comprovar que o continente americano estava separado do antártico. Deste modo se deu fim ao mito da “Terra Australis Incónita”. Contrariamente à crença popular, Drake não navegou o estreito que hoje leva seu nome, nem se aproximou sequer do Cabo Hoorn, e sim se derivou muito mais ao norte.
À ameaça dos piratas, se somava o avanço das frotas inglesas, que continuavam tomando posições e estabelecendo colônias por todas as partes do globo. Por estes motivos a Coroa Espanhola decidiu colonizar a “Terra dos Fogos” através do assentamento na costa do Estreito de Magalhães. Foi assim como, em 1584, a expedição sob o comando de Pedro Sarmiento de Gamboa funda os povoados “Em nome de Jesus” (perto do Cabo Virgens) e “Rei Don Felipe” (nas imediações do Forte Bulnes, ao sul da atual cidade de Punta Arenas). Esta iniciativa não prosperou devido à falta de alimentos, os violentos temporais e o desconhecimento das características do meio ambiente, que acabaram com a população pouco tempo depois de estabelecida. Este fracasso manteria os espanhóis longe por quase quatro décadas.
Pouco tempo depois começaram as freqüentes aparições dos holandeses, das quais a mais transcendente foi a expedição comandada por Jacob Le Maire e Willian Schouten. À diferença de seus antecessores, eles não cruzaram o Estreito, mas sim, continuaram navegando para o sul. No dia 21 de janeiro de 1616 divisaram uma ilha, a qual batizaram “de los Estados” em homenagem ao seu país (nessa época, Staten Land) e o estreito que divide esta da Ilha Grande da Terra do Fogo, que denominaram Le Maire. A viagem continuou para o sudoeste, em busca de novos mares, denominando durante sua passagem, acidentes geográficos menores, até que chegaram ao ponto mais austral do continente e o batizaram “Cape Hoorn” em honra à cidade de onde partiram e à uma das naus da expedição, desse momento.
“Nossa Senhora de Atocha” e “Nossa Senhora do Bom Sucesso” foram as naus que concretizaram o despertar espanhol. Em 1619, depois de vários anos de ausência no extremo sul do continente americano, os irmãos Gonzalo e Bartolomé Garcia del Nodal dirigiram uma expedição que obteve transcendência ao ser a primeira em percorrer a costa atlântica da Ilha Grande da Terra do Fogo – dando nome sistematicamente a muitos dos acidentes geográficos encontrados no caminho – e por levar a cabo a primeira circunavegação. Também, conforme os registros, haviam sido os primeiros em estabelecer contato com os nativos.
No começo do século XVIII era de conhecimento público na Europa a existência de uma porção insular ao sul do continente americano e da existência de habitantes nativos. A história das navegações na Terra do Fogo teve como protagonistas a franceses, holandeses e britânicos, quem – guiados pela cartografia elaborada cada vez com maior precisão, graças aos descobrimentos de Magalhães, Le Maire e os irmãos Nodal, entre outros – exploraram, descobriram e deram nome a inumeráveis acidentes geográficos do arquipélago.
À medida que se incrementava o conhecimento sobre estas terras as expedições foram adquirindo carácter científico, chegando a desembarcar a terra firme por períodos cada vez mais prolongados. Isto desenvolveu contatos mais freqüentes com os nativos e finalmente as primeiras tentativas de colonização.
Um dos navegantes mais destacados desse século foi o inglês James Cook, que realizou várias viagens a essa região. Na primeira, a bordo da nau Endeavour no ano de 1769, foi acompanhado pelos científicos Joseph Banks e Daniel Solander que conseguiram revelar valiosa informação sobre a geografia da área oreintal da Ilha Grande e sobre os nativos que a habitavam. A segunda das viagens de Cook foi talvez uma das mais transcendentes, já que tinha como objetivo revelar o mistério antártico. Foi assim como chegou até as Ilhas Georgias e descobriu as Sanduíches do Sul, deixando no seu caminho muito dos topônimos da Ilha dos Estados.
A informação obtida nessas viagens sobre as riquezas da região deu lugar a um intenso tráfico lobeiro e baleeiro que se estenderia até o princípio do século XX, provocando o risco de extinção de muitas das espécies da fauna marinha.
DESCOBRIMENTO DO CANAL BEAGLE
Em 1826 chegou a estas costas uma expedição inglesa formada pelos bergantins “Beagle” e “Adventure”, sob o comando dos capitães Robert Fitz Roy e Philip Parker King respectivamente. Tinham o propósito de realizar um relevamento hidrográfico do litoral da região e de avaliar a possibilidade de estabelecer relação com os aborígenes. Fazendo parte da tripulação se encontrava o contra-mestre Mathew Murray, que descobriu a passagem de mesmo nome e foi quem avistou de longe o canal que posteriormente batizariam de “Beagle”, em homenagem à embarcação que liderava Fitz Roy.
O contato com os nativos foi progressivo, e começou através de troca de produtos naturais (peixes, peles e gordura) por botões, contas e outros elementos de pouco valor no mercado europeu. Depois de um confuso episódio num desses intercâmbios, o capitão Fitz Roy tomou quatro aborígenes como reféns, os quais foram levados à Inglaterra com o propósito de serem introduzidos na cultura inglesa, especulando a possibilidade de utilizá-los como intérpretes em viagens futuras. Mas, a pesar de ter tido excelentes resultados na Inglaterra, o objetivo de Fitz Roy se viu finalmente frustrado, pois no seu regresso à ilha, os três aborígenes sobreviventes daquela experência voltaram a adotar os costumes de sua cultura.
Durante estas e outras expedições – que incluíam novamente Fitz Roy e outros personagens destacáveis como Charles Darwin e James Weddel – continuou- se explorando as riquezas do território, através da realização de relevamentos e investigações científicas. Também começaram a se comtemplar com maior ambição as possibilidades de exploração e assentamento, objetivos que até o momento não tinham passado de tentativas frustradas.
ALGUMAS TENTATIVAS DE COLONIZAÇÃO
No ano de 1844 o capitão aposentado da marinha britânica Allen Gardiner fundou junto a outros anglicanos a “Sociedade Missioneira da Patagônia”, que logo ampliaria suas ambições e mudaria seu nome a “Sociedade Missioneira do Sul da América”. Esta empresa tinha como objetivo arrecadar fundos para enviar missões que predicassem o evangelho entre os aborígenes.
Um ano antes, Gardiner havia percorrido a região do Estreito de Magalhães onde estabeleceu contatos positivos com alguns nativos. No entanto, quando regressou mais tarde, encontrou já a influência dos homens brancos e decidiu então aventurar-se por terrenos ainda mais austrais.
Sua primeira tentativa na Ilha Picton, no ano de 1848, não teve êxito devido à reações hostis por parte dos aborígenes.
Dois anos mais tarde voltou aos canais fueguinos, desta vez com a idéia de estabelecer uma “missão flutuante”. Apesar de seu empenho na busca de verbas para a construção de navios adequados, somente conseguiu duas embarcações pesadas.
Novamente em Picton, a relação com os nativos se tornou insustentável. Conjuntamente, as duas naus destinadas ao abastecimento dos europeus sucumbiram – uma por motim e a segunda por naufrágio – piorando a situação.
Finalmente, Gardiner e seus seis companheiros decidiram abandonar o lugar, e depois de deixar uma mensagem de auxílio na Ilha Picton, se transladaram à Baía Aguirre na Península Mitre. Logo de vários meses na costa, resistindo à crudeza meteorológica e à falta de alimento, os missioneiros foram perecendo um a um. Se presume que o último deles foi o próprio Gardiner, quem registrou os fatos em um diário achado porteriormente junto aos restos da expedição.
EXPEDIÇÕES CIENTÍFICAS
A “Expedição Científica Cabo Hoorn” chegou à Terra do Fogo em setembro do ano de 1882, com o capitão Luis Fernando Martial no comando da nau “La Romanche”. Esta expedição francesa – identificada também com o nome da nau – tinha objetivos exclusivamente científicos e deixou valiosos resultados depois de vários anos de trabalho.
A iniciativa teve lugar depois de uma série de conferências realizadas na Europa em 1879, quando vários países coincidiram com a criação de estações científicas que fossem se desenvolvendo simultaneamente em pontos chaves das regiões polares. De 14 lugares escolhidos, 12 se encontravam no Oceano Ártico e tão somente 2 nas proximidades do Polo Sul.
Foi assim como se decidiu a construção de um modesto assentamento na Baía Orange (Ilha Hoste), no qual permaneceram durante mais de três anos, quase uma dezena de investigadores incluindo Martial e o Dr. Hyades.
Durante essa prolongada estadia – além de percorrer os arquipélagos próximos realizando estudos de meteorologia e magnetismo terrestre, de astrologia, zoologia, botânica, geologia e meteorologia – os científicos estabeleceram uma estreita relação com os Yámana. Inicialmente, começou com o intercâmbio de produtos diversos tal como aconteceu com outros navegantes que haviam passado antes pela região. Mas a longa permanência da tripulação, resultou na cooperação por parte dos Yámanas em numerosas atividades de utilidade aos fins das investigações antroplógicas. Isto se viu favorecido, em parte, pela experiência dos missioneiros anglicanos que se encontravam em Ooshooia ( a poucas milhas de distância) trabalhando com os nativos há vários anos e que rapidamente estabeleceram relação com os integrantes da La Romanche.
Os resultados da expedição foram altamente positivos. No seu regresso à França, os científicos levaram consigo uma grande variedade de amostras e informação que tiveram um valor fundamental no conhecimento dos sistemas naturais deste setor do globo.
A PRESENÇA ARGENTINA
A soberania argentina começou a se ver ameaçada pela onda de expedições européias que freqüentavam o arquipélago e também perante possíveis desejos de expansão por parte da república chilena.
De acordo ao tratado de amizade, suscitado em 1855, ambos países reconheciam como próprios os mesmos territórios que possuíam no momento da sua independência da coroa espanhola, em 1810.
No entanto, diante de certas omissões ou superposições nos títulos espanhóis, ambos países continuaram suas políticas expansionistas. O Chile fundou a cidade de Punta Arenas e, entre 1859 e 1862, o comandante argentino Luis Piedrabuena chegou à Ilha Pavão e à Ilha dos Estados. Estes constituíram os únicos assentamentos de homens brancos na região até a instalação da Missão Anglicana em 1869.
Desde a década de 1840, Piedrabuena tinha se dedicado a navegar os mares austrais, caçando lobos marinhos nas costas patagônicas. Na Ilha dos Estados instalou um estabelecimento para o processamento de pingüins.
Seu papel como “defensor da soberania nacional” surgiu de maneira casual desde o princípio: encontrando-se na região, em numerosas oportunidades teve que sair ao resgate de náufragos e colaborar com a instalação de postos de guarda e aprovisionamento. Com cada um destes atos se reivindicava a soberania nacional e defesa do território.
Somente a partir de 1878 começou a agir oficialmente, desempenhando-se como assessor do governo em questões de importância para a Patagônia e Terra do Fogo. Levou adiante incontáveis expedições. Trabalhou inclusive na planificação da Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul, na qual não pôde participar devido à sua morte repentina, um ano antes da data prevista para a partida.
O objetivo principal da Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul foi a instalação da polícia costeira perto de onde hoje se conhece como a cidade de Ushuaia. O governo argentino via com bons olhos a possibilidade de estabelecer um posto de vigilância e resgate que atendesse os incovenientes que pudessem surgir entre as embarcações que chegavam à região. Dada as características físicas e as condições meteorológicas da região, muitas vezes era necessário auxiliar os navegantes e consertar os barcos. Isto, levado adiante de forma organizada e com regulação oficial, podia significar uma importante fonte de renda para o governo nacional. Por outro lado, a proximidade da fronteira chilena e a existência de uma missão religiosa estrangeira incutiam certa preocupação no Congresso. O estabalecimento de uma polícia naval, ou como é chamada, subprefectura seria uma estratégia ideal para assentar soberania sobre o território.
No dia 25 de maio de 1884, poucos meses antes de adentrar-se no Canal Beagle, a expedição comandada pelo Comodoro da Marinha Augusto Lasserre, cria uma subprefectura na base do Monte Richardson, na Ilha dos Estados e inaugura o farol San Juan de Salvamento no porto de mesmo nome. No dia 28 de setembro de 1884, a frota (composta pela corveta canhoneira Paraná, o aviso Comodoro Py, o aviso Transporte Villarino e as embarcações Patagones e Bahía Blanca) chega finalmente à baía de Ushuaia. Aquí a expedição é recebida com cordialidade pelos missioneiros, especialmente pelo Reverendo Thomas Bridges que deu conselhos a Lasserre sobre o melhor lugar para a instalação da subprefectura. O local escolhido foi uma baía que os Yámana denominavam “Alakushwaia” (baía do pato vapor), localizada a 2 km para o leste da missão religiosa. Assim, no dia 12 de outubro desse ano, se inauguraram os primeiros edifícios da Subprefectura Naval de Ushuaia.
Desde então, no dia 12 de outubro de cada ano se celebra o nascimento da cidade de Ushuaia. Mas só no ano seguinte – dia 27 de junho de 1885 – quando se estabeleceu a divisão política do território e se começou a construção do povoado, que teve como primeiro governador o Capitão da Marinha Félix María Paz.
Em 1871 se instala definitivamente a Missão Anglicana, a cargo do Reverendo Thomas Bridges.
Em setembro de 1884, sob o comando do Comandante Augusto Lasserre, chega a Ushuaia a Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul da Armada Argentina, procedente da Ilha dos Estados onde haviam instalado uma subprefectura e o farol San Juan de Salvamento que mais tarde seria conhecido como o Farol do Fim do Mundo. Com o propósito de afirmar a soberania argentina nessa região, a apenas 20 km da fronteira com o Chile, no dia 12 de outubro de 1884 se inaugura a Subprefectura Naval Argentina e se iça por primeira vez o Pavilhão Nacional sobre uma instituição argentina na ilha. Todo ano, nessa mesma data, se comemora o nascimento da nossa cidade.
No entanto, uma idéia preocupava o Governo da Nação: efetuar a radicação definitiva de povoadores neste solo. É dessa maneira que o governo argentino decide instalar um presídio no arquipélago fueguino. No princípio se instala uma Prisão Militar na Ilha dos Estados, e uma cárcere de Reincidentes na Baía Golondrina, nos arrabaldes da cidade.
Paralelamente, em 1902, se coloca a pedra fundamental do edifício que ainda se pode observar, no qual se albergou presos comuns, militares e - em alguma ocasião – até presos políticos, unificando as duas instituições anteriores. O Presídio Militar e a Cárcere de Reincidentes da Terra do Fogo foi o eixo do desenvolvimento da cidade na primeira metade do século XX. Suas oficinas de imprensa, fotografia, alfaiataria, sapataria, carpintaria, padaria, serviço médico e farmácia, cobriam as necessidades de uma população tão distante de tudo, onde os barcos chegavam com sorte, uma vez por mês.
No início do século, o pequeno povoado vê com agrado a chegada de algumas famílias de origem croata. A verdadeira razão de seu translalado à Ushuaia, está ligada ao êxodo de croatas a Punta Arenas (Chile) de onde migravam à Argentina. Em 1913 zarpam da Espanha algumas famílias com o frustrado objetivo de instalar aquí uma fábrica completa para enlatar sardinhas. Diante do fracasso da empresa, alguns espanhóis regressam ao velho continente, enquanto outros encontram motivos para ficar nestas terras.
Em 1928 ocorre a chegada à Ushuaia do primeiro vôo: Gunter Plüschow e seu hidroavião “Condor de Prata” revolucionam o tranqüilo povoado. No entanto, o transporte marítimo continua sendo a única via de comunicação de Ushuaia com o resto do mundo, até fins de 1935.
Naqueles anos navegar por estes arquipélagos era uma tarefa realmente difícil, por isso, numerosos naufrágios constituem uma parte importante da história da região. Em 1930, o navio de origem alemão “Monte Cervantes” naufraga saindo da baía de Ushuaia, quando levava uma quantidade de passageiros que igualava em número a população local daquela época. Os náufragos foram socorridos e alojados durante seis dias nos escassos lares que existiam em Ushuaia nesse tempo. Compartilharam sua estadia com eles até que um novo navio chega para ajudá-los e os transladam a Buenos Aires.
Em 1947 Governo da Nação decide suprimir a cárcere e todas as instalações são transferidas ao Ministério da Marinha. Nesse mesmo ano, com a criação da Estação Aeronaval de Ushuaia, se inauguram linhas aeroanavais que abasteciam as bases patagônicas e a companhia Aeroposta começa a chegar regularmente.
A vida da pequena Ushuaia se vê novamente renovada em 1948 com a chegada de outro barcos de imigrantes: o “Gênova”, que trazia um grupo de italianos que chegavam com o objetivo de construir moradias. Muitos deles deixaram o lugar uma vez terminada a tarefa, mas alguns preferiram ficar. Também começam a chegar famílias chilenas que se estabelecem na cidade. Com o tempo, estes imigrantes foram formando o grupo de pioneiros, os quais hoje se distinguem como “antigos povoadores”.
Em 1950 é criada a Base Naval Ushuaia Almirante Berisso, que é a mesma que funciona atualmente nas ruas San Martín e Yaganes.
A década de 70 marca outra etapa na história da cidade, com a sanção da Lei de Promoção Industrial (Ley Nº 19.640) muitos argentinos chegam atraídos pela possibilidade de trabalhar e guardar economias.
Em 1990 nasce a Província da Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, quando o honorável Congresso da Nação sanciona a Lei de Provincialização (Lei Nº 23.775). No dia 1º de junho do ano seguinte se jura a Constituição Provincial e desde então, nessa data, se comemora o Dia da Província.
Desde as suas origens e até a atualidade, Ushuaia viu crescer a sua população através da chegada de imigrantes provenientes de diferentes regiões da Argentina e do mundo, o que deu como resultado , uma cidade que se caracteriza pela sua variedade e riqueza cultural.










